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Quando a água sobe, a humanidade não pode afundar: Conheça Inocêncio Chongo, o homem que acolheu mais de 300 famílias vítimas das cheias em Gaza

 

Quando as águas invadem cidades, não levam apenas casas e bens materiais, levam dignidade, segurança e, muitas vezes, vidas. Em Chókwè, uma das zonas historicamente mais vulneráveis às cheias em Moçambique, a solidariedade voltou a ser a primeira linha de defesa diante da lentidão institucional.

 Foi nesse cenário que Inocêncio Salvador Chongo, natural de Chókwè e funcionário do Instituto Nacional da Saúde, conhecido carinhosamente como “Tio Bonito Mabrinhenhe”, abriu as portas de um hotel em construção para acolher cerca de 300 famílias vítimas das cheias. Nesta entrevista, Tio Bonito Mabrinhenhe relata, com lucidez e humanidade, os dias de dor, resistência e organização comunitária, ao mesmo tempo que faz uma crítica directa à falta de articulação entre os planos oficiais de contingência e a realidade vivida no terreno. Solidariedade em Tempos de Cheias Integrity Magazine — Como surgiu a decisão de acolher famílias que se encontravam em zonas de risco? Tio Bonito Mabrinhenhe; As famílias não foram transportadas.

Elas próprias vieram pedir abrigo para se esconder das cheias no nosso hotel, que se encontra em fase terminal de construção. Integrity Magazine — Pode descrever o primeiro dia dessa experiência? O que mais o marcou nesse momento? Tio Bonito Mabrinhenhe – Foi na tarde do dia 16 de Janeiro, quando as águas invadiram a cidade de Chókwè. Imediatamente, as pessoas começaram a chegar com os seus pertences, incluindo animais, ao hotel. O que mais me marcou foi ver idosos e crianças enfrentando tantas dificuldades naquele momento.

Integrity Magazine; Quantas famílias e quantas pessoas conseguiram apoiar durante esta ação solidária? Tio Bonito Mabrinhenhe; Aproximadamente 300 famílias estiveram acomodadas no hotel e, na verdade, ainda estão. Para além da acomodação, disponibilizamos carvão vegetal e água potável às vítimas. Integrity Magazine; Houve algum episódio ou história específica que o tenha emocionado ou deixado preocupado? Tio Bonito Mabrinhenhe; Fiquei profundamente emocionado ao ver uma família composta por uma idosa de cerca de 85 anos e a sua neta de 7 anos. A criança ajudava a avó a subir as escadas para se proteger das cheias. Foi uma imagem muito forte. Integrity Magazine; Que tipo de apoio recebeu da comunidade durante esta iniciativa? Tio Bonito Mabrinhenhe; Jovens da comunidade juntaram-se para ajudar na organização das pessoas refugiadas e também apoiaram na distribuição diária de água potável. Integrity Magazine; Na sua opinião, as autoridades locais estão preparadas para responder rapidamente a situações de cheias e inundações? Por quê? Tio Bonito Mabrinhenhe; Não. Porque não existe coerência entre o que está priorizado no Plano de Contingência e a realidade no terreno. Por exemplo, não faz sentido sensibilizar a população a sair das zonas baixas para zonas altas sem disponibilizar transporte, sabendo que nem todos têm condições financeiras para pagar. Integrity Magazine; O que estas cheias revelam sobre a vulnerabilidade das comunidades que vivem em zonas de risco? Tio Bonito Mabrinhenhe – Revelam que essas comunidades precisam optar pela construção de casas mais resilientes às cheias e inundações, além de outras medidas de adaptação a eventos extremos.

Integrity Magazine; Que lições esta experiência lhe deixou, ao nível humano e social? Tio Bonito Mabrinhenhe – Ao nível humano, aprendi que é sempre bom ajudar o próximo sem qualquer condicionalismo. Socialmente, percebi a importância de manter boas relações na comunidade, porque em momentos de aflição, especialmente em centros de refúgio, todos somos irmãos. Integrity Magazine ; Que medidas deveriam ser tomadas para evitar perdas humanas e materiais no futuro? Tio Bonito Mabrinhenhe; É fundamental investir em educação, informação e comunicação contínua sobre prevenção de desastres. Além disso, o governo precisa de uma equipa operacional multissectorial, com exercícios de simulação constantes, para estar preparada no momento da resposta. Integrity Magazine – Estaria disposto a voltar a ajudar em futuras emergências? O que seria necessário para melhorar essa resposta solidária? Tio Bonito Mabrinhenhe – Sim. Assim que terminarem as chuvas, pretendemos preparar a capacidade da nossa empresa, ALL BROTHERS INVESTIMENTOS, LDA, para adquirir meios aquáticos, como barcos e motas de água.

 Com esses recursos, muito mais poderia ser feito. Integrity Magazine; Que mensagem deixa às famílias afectadas e à sociedade em geral? Tio Bonito Mabrinhenhe ; É responsabilidade e obrigação do governo cuidar da população, mas é também responsabilidade de todos nós apoiar quem realmente precisa. A história de Inocêncio Salvador Chongo é o retrato cru de um país onde a solidariedade comunitária continua a suprir as falhas do Estado em momentos críticos. Quando os planos ficam no papel e a água sobe sem avisar, são cidadãos comuns que transformam hotéis inacabados em refúgios de esperança.

Mais do que um gesto isolado, esta experiência lança um alerta urgente: sem prevenção real, sem meios concretos e sem coordenação eficaz, as cheias continuarão a ser tragédias anunciadas. E, enquanto isso não muda, a sobrevivência de centenas de famílias continuará a depender da coragem e humanidade de pessoas como Tio Bonito Mabrinhenhe. (Milda Langa)  

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